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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A FIV e o nosso Cazuza (em homenagem)

Hoje a gente veio aqui contar uma história pra vocês, uma história que é feliz e triste ao mesmo tempo, mas que é importante, porque pouca gente sabe sobre uma doença bem séria que pode acometer os gatinhos.

A história da gente começa em uma noite do mês de setembro, quando fomos levar dois gatinhos adotados para a casa nova. Após deixarmos os meninos com os novos donos, estávamos indo embora quando nos deparamos com um gatinho em uma calçada. Sem dúvida aquele gatinho estava procurando comida, ele estava com metade do corpo na calçada e metade na rua. Um perigo! Nós não podíamos resgatar mais nenhum gato, a lotação do abrigo estava esgotada, com muitos gatinhos tendo que ficar em lares temporários. Então, como a gente sempre anda com ração no carro, decidimos parar e dar um pouco pra ele. Foi aí que a coisa toda complicou. Ele era o gato mais magro que já tínhamos visto em toda a nossa vida! Como deixar um gatinho assim para trás? Ficamos pensando em como fazer pra assumir mais um, ainda mais que o Projeto estava passando por várias mudanças, mas não teve jeito, resgatamos ele.

A primeira noite foi no abrigo, dentro da gaiolinha na quarentena, sem contato com nenhum outro, afinal nunca sabemos o que um resgatado pode ter né? E não vamos arriscar a saúde dos outros meninos do abrigo. Não tínhamos como arcar com a consulta em horário de plantão, então a solução foi essa. Na manhã do dia seguinte, Farelo como estávamos chamando o gatinho, foi para a consulta com o veterinário. Magro, abatido, desidratado e provavelmente cheio de doenças como rinotraqueíte e micoplasma, mas ronronante e carinhoso como a gente nem sabia que ele tinha forças pra ser.

Magrelo, mas ativo e ronronante
Os exames foram feitos, e veio a bomba. Farelo tinha micoplasma e FIV (Vírus da Imunodeficiência Felina), conhecida como AIDS felina. De repente ficamos sem chão. E agora? O que fazer? Uma doença fatal e que faria com que ele tivesse que ficar isolado de todos os outros gatos saudáveis do abrigo. Nós nunca tínhamos tido a experiência de resgatar um gato com FIV, mas sempre soubemos que isso ia acontecer algum dia. Farelo, foi carinhosamente apelidado de Cazuza (em homenagem ao cantor), e a partir daí só o chamávamos assim, Cazuza.

O agora Cazuza voltou para o abrigo. Separamos um lugarzinho só pra ele, onde não pudesse entrar em contato com os outros. Preparamos uma caminha quentinha, água fresca, comidinha especial e uma caixa de areia exclusiva. Com o passar dos dias ele foi ficando mais fortinho. Driblou o micoplasma e até engordou alguns gramas. Sempre que nos via vinha todo feliz se esfregar, ronronar e pedir carinho. Onde quer que a gente fosse ele ia atrás. E estava comendo direitinho. Não gostava muito de patê ou sachê, odiava os remédios, mas comia a ração seca e adorava carne.

Se esfregando e pedindo carinho
Uma piscadinha charmosa pra você
A FIV é bem similar ao HIV, e é espécie-específica, isto é, só infecta gatos. Não há riscos de transmissão para humanos ou cães. Quando infectado, o gato pode viver anos com o vírus antes que a doença se manifeste e afete seu sistema imunológico. A maneira mais comum de um gato ser infectado é através de mordidas, por isso os gatos positivos para o vírus devem ficar isolados dos que não tem o vírus. Segundo diversas fontes, raramente o vírus pode ser transmitido através de contato social (grooming mútuo) ou da mãe para os filhotes, mas transfusões de sangue podem ser a causa de infecções.

O vírus não sobrevive por muito tempo no ambiente e é facilmente eliminado com o uso de desinfetantes comuns. Muitos gatos podem viver bem mesmo com o vírus por longos períodos de tempo, e o desenvolvimento da doença é influenciado por vários fatores diferentes, inclusive o cuidado com o gato. Dá pra saber mais sobre a doença aqui: http://www.icatcare.org:8080/advice/cat-health/feline-immunodeficiency-virus-fiv, aqui: http://ronronar.com/como-cuidar/principais-doencas-gatos e aqui: http://pets.webmd.com/cats/cat-fiv-feline-immunodeficiency-virus

Então foi assim... Por um pouco mais de um mês o Cazuza ficou entre nós. Teve todo carinho e cuidado que poderia ter. Nossos planos futuros incluíam a construção de uma área só para gatinhos como ele (e outros infectados com FELV, mas isso é outro post). Infelizmente hoje (29 de outubro), nosso menino se foi. Uma das integrantes do Projeto já o encontrou muito debilitado, com hipotermia e quase sem respirar. Foi tudo muito rápido, ontem ele passou o dia bem. O atendimento veterinário foi imediato, mas ele não resistiu.

Estamos todos muito tristes pela perda do nosso Cazuzinha, mas temos a certeza de que, pelo menos no seu último mês de vida, ele foi amado e feliz. E teve quase tudo que um gatinho poderia querer. A foto dele nunca esteve no álbum de adoção, pois sabíamos que um gato adulto e portador de FIV seria de difícil adoção. Além disso, ele ainda estava muito magro para podermos postar uma foto bonita.

Temos certeza também que, se todos os seres vivos têm uma missão, a do Cazuza foi ensinar pra gente sobre essa doença. E a partir disso tentaremos mostrar pra todo mundo que gatinhos positivos para FIV ou FELV podem ser amados e ter um lar, desde que sozinhos ou com outros gatinhos também portadores dos vírus.

Apesar de tudo pelo que deve ter passado, lindo!
Não sabemos se o Cazuza já teve um lar antes de encontrarmos ele, mas esperamos que tenha se sentido cuidado e muito amado por todos do Projeto Viva Gato.

Para finalizar, queremos agradecer imensamente aos veterinários que nos ajudaram a cuidar dele, Dr. Thiago e Dra. Fernanda, e a todas as outras pessoas que estiveram envolvidas direta ou indiretamente com o Cazuza.


Vai em paz anjinho. Sua passagem por aqui não foi em vão.

Adeus Cazuzinha!
"Saudade
É uma palavra
Saudade
Só existe na língua portuguesa
...
Saudade do que nunca vai voltar"
(Saudade - Cazuza)